Santo Ivo e a missão do advogado
Umberto Luiz Borges D’Urso e Clarice Maria de Jesus D’Urso
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O brilhante jurista brasileiro, Ruy Barbosa, resumiu em uma frase o que entendia sobre ser advogado. “A profissão de advogado tem, aos nossos olhos, uma dignidade quase sacerdotal.” Em poucas palavras, o eminente jurista nos lembra o patrono dos advogados, Yves Hélory de Kermartin, Santo Ivo, que foi advogado e frade franciscano.
A nobreza e as posses não impediram Santo Ivo de reconhecer a desigualdade de oportunidades entre as pessoas; o que o levou a ser, em pleno século XIII, defensor dos pobres e fê-lo lutar para que todos vivessem com dignidade. Foi, portanto, ainda que – à época – não houvesse a nomenclatura, um defensor dos direitos humanos.
De talento precoce, aos 14 anos Santo Ivo foi estudar teologia na Universidade de Paris; entre seus professores, estava o italiano Tomás de Aquino, padre e maior representante da Escolástica, pensamento desenvolvido em um momento de expansão e grande domínio católico na Europa.
Após 10 anos, foi para Orleans, onde se especializou em Direito Civil e Direito Canônico e, ao concluir o bacharelado, foi nomeado juiz episcopal na arquidiocese de Rennes, capital da Bretanha. Em seguida, foi ordenado sacerdote e assumiu uma paróquia em Treguier, sua cidade natal, também na Bretanha.
Naquela época, estudar era privilégio dos ricos e poderosos e, portanto, poucas pessoas falavam ou entendiam o latim. Então, para que todos pudessem compreender o que dizia na missa, Santo Ivo não usava o latim, como era costume na época; falava em bretão.
Após se tornar frade franciscano, se desfez de todos os bens e heranças. Relatos contam que ele transformou o castelo que recebeu como herança da família em hospital e asilo para os idosos e necessitados.
Como São Francisco de Assis, ele também cuidava dos doentes. Não se calava nem recuava quando saía em defesa dos pobres e oprimidos, bem como em defesa de seus ideais e ideias. Em certo momento, Ivo enfrentou o rei da França, Filipe IV, em um debate sobre tributação.
Além da herança, Ivo não se importava também em doar tudo o que precisavam. Em uma ocasião, ele deu sua capa para um homem, seu paletó para outro e, por fim, doou seus sapatos e foi para casa apenas com a camisa, em pleno inverno francês.
Em 1287, renunciou a todos os cargos oficiais, devotando o seu tempo aos paroquianos, como sacerdote e advogado. Santo Ivo costumava passar suas noites em vigília, oração e estudos, bem como saía pelas ruas em busca dos desamparados para lhes prestar ajuda material e espiritual, cuidados e orientações.
Patrono
Com a frase “jura-me que sua causa é justa e eu a defenderei gratuitamente”, Santo Ivo, além de patrono dos advogados, é ainda o precursor da Defensoria Pública. Também conhecido por suas defesas inusitadas. Certa vez, ao defender um homem humilde, acusado, por um vizinho rico e poderoso, de roubar-lhe os odores da comida, Ivo tirou moedas de ouro e prata da bolsa, exibiu-as aos presentes, principalmente para o homem rico, agitou-as, fazendo muito barulho, e disse ao acusador: “Este homem aspirou o odor de teus alimentos! Pois paga com o tinido destas moedas! O som puro paga o bom odor!”.
Ivo sempre buscava uma forma de conciliação para solucionar os litígios; por tal fato, conquistava o respeito e a confiança de ambas as partes. Outra frase que se eternizou como sendo do Santo é a afirmação de que “é melhor um acordo razoável do que uma boa briga”
Festa
Em 19 de maio, data da morte de Santo Ivo, uma festa, chamada Perdão de Santo Ivo, ocorre em sua cidade natal, quando uma multidão segue para a localidade em busca de perdão para seus pecados e também para pedir graças.
Santo Ivo é representado por duas imagens. Em uma delas ele aparece vestido com a beca de juiz, mão direita levantada, mostrando a realização de sentenças justas com o auxílio de Deus. Na mão esquerda, o Santo carrega um rolo simbolizando o conhecimento. A Justiça é mostrada com a balança e a espada aos pés de Ivo.
Na segunda imagem, o Santo está entre dois homens, o rico e o pobre. O rico com um saco de dinheiro e o pobre, ajoelhado, agradecido, também tem dinheiro e um documento. Santo Ivo foi canonizado pelo Papa Clemente VI, em 19 de maio de 1347.
Todo jovem advogado católico, ateu ou de qualquer religião, deveria refletir sobre o Decálogo do Advogado, de Santo Ivo, pois trata-se de um código de conduta profissional.
Decálogo de Santo Ivo
1. O advogado deve pedir a ajuda de Deus nas suas demandas, pois Deus é o primeiro protetor da Justiça;
2. Nenhum advogado aceitará a defesa de casos injustos, porque são perniciosos à consciência e ao decoro;
3. O advogado não deve onerar o cliente com gastos excessivos;
4. Nenhum advogado deve utilizar, no patrocínio dos casos que lhe são confiados, meios ilícitos ou injustos;
5. Deve tratar o caso de cada cliente como se fosse seu próprio;
6. Não deve poupar trabalho nem tempo para obter a vitória do caso de que se tenha encarregado;
7. Nenhum advogado deve aceitar mais causas do que o tempo disponível lhe permite;
8. O advogado deve amar a Justiça e a honradez tanto como as meninas dos olhos;
9. A demora e a negligência de um advogado causam prejuízo ao cliente e, quando isso acontece, deve o advogado indenizá-lo;
10. Para fazer uma boa defesa, o advogado deve ser verídico, sincero e lógico.

